Tava folheando hoje umas revistas da Turma do Barulho, vendo o que eu poderia escanear pra pôr aqui e fiquei admirando os desenhos do melhor artista da revista. Não, não era eu. Era o Enrique Valdez!
O Enrique é argentino, mas mora há tantos anos no Brasil que já é praticamente um brasileiro (menos na época da Copa do Mundo). Ele era o diretor de arte do estúdio onde nós (a equipe da revista) trabalhávamos. O estúdio funcionava num salão alugado num prédio comercial na Rua Direita, centro de São Paulo. Lá a gente produzia um monte de coisas além da Turma do Barulho. Sabe como é, quadrinho nunca pagou bem (mas naquela época, pelo menos, pagavam), então a gente tinha que fazer várias outras coisas. Tínhamos uns 10 dias, mais ou menos, pra produzir a revista. Ela era mensal, mas isso não significa que tínhamos um mês pra fazer; a revista ainda tinha que ir pra gráfica e depois ser distribuída pelo país todo.
O Enrique, além de desenhar muito bem, era um ótimo caricaturista, e tinha o hábito de desenhar o pessoal do estúdio (e alguns colaboradores “externos” que eram amigos dele) no gibi. Na cena abaixo, exceto pelo neguinho de óculos escuros, todos em volta da garota são pessoas reais. Em sentido horário, começando pelo cara sentado à esquerda da moça: Nelsinho, Peterson, Sergio Morettini (tem uma matéria sobre ele aqui), Paulo Santo, um amigo do Enrique cujo nome não lembro agora, Gil e Marcos Ruman.

Essa foi uma das boas fases da minha vida. Gostava muito de trabalhar em estúdios, porque eram os únicos lugares onde eu me sentia entre pessoas reais. É diferente de quando estou no meio de fanzineiros, “autores independentes”, artistas iniciantes, enfim, pessoas que nunca puseram os pés no mercado real. Parece que vivem em outro mundo. Nêgo viaja pra caramba… Nada contra viajar, eu também viajo, mas se você faz SÓ isso, acho que não é uma coisa muito saudável. Por isso acho estranho quando leio reportagens como essa sobre os desenhistas que renovam o quadrinho nacional. Gosto muito dos trabalhos de todos os artistas mencionados, mas na reportagem fica claro que não apenas nenhum deles ganha dinheiro com quadrinhos, como não parecem preocupados com isso e ainda por cima falam de um “novo momento do quadrinho nacional” que só existe na cabeça deles.
Mas voltando ao Enrique: faz muitos anos que não nos vemos. Depois que o gibi da Turma acabou e o estúdio fechou, ainda fizemos alguns frilas juntos, e ele me levou pra trabalhar por alguns meses num estúdio de animação. Por volta de 1998/99, ele entrou pro estúdio de quadrinhos do Mauricio de Sousa e está lá até hoje.